Santa Casa fecha setor cardíaco infantil e crianças são transferidas para fora de MS
Hospital era o único de referência do SUS para crianças com cardiopatia congênita em MS
A Santa Casa de Campo Grande fechou o setor de cirurgia cardíaca pediátrica e transferiu as crianças internadas para unidades de referência em São Paulo e no Paraná. O hospital era o único centro de referência do SUS (Sistema Único de Saúde) para atendimento de crianças com cardiopatia congênita no Estado.
O problema já estava anunciado desde o dia 2 de setembro, quando um grupo de médicos recusou-se a seguir trabalhando na unidade, já que estavam com quatro meses de salários atrasados. No dia 11 de setembro, a presidente da Santa Casa, Alir Terra, e diretores foram presos por suspeita de fraudes em contratos.
Desde então, quatro crianças ficaram internadas na Santa Casa, aguardando operação cardíaca, e mais uma foi admitida. “Foram transferidas para outro serviço do SUS, no interior de São Paulo e no hospital de referência de Curitiba”, explica a diretora clínica da Santa Casa, médica Izabela Falcão.
Apenas uma das crianças segue na Santa Casa, porque não tem condições de saúde suficientes para a transferência. No entanto, assim que for estabilizada, a paciente com cardiopatia congênita também deve ser retirada do hospital e levada a outra unidade de saúde, fora de Mato Grosso do Sul.
‘Grande perda para o Estado’
O cirurgião Luiz Alberto Kanamura, novo diretor-presidente da Santa Casa, diz que o hospital não tem mais condições de manter esse atendimento. “É um problema que não é só da Santa Casa, é dos gestores estaduais, municipais e federais. Então, a decisão tem que ser pactuada em todos os níveis”, opina.
A diretora clínica da Santa Casa, Izabela Falcão, lamenta que Mato Grosso do Sul tenha perdido o único centro gratuito para este tipo de atendimento e espera uma solução. “É uma grande perda para o Estado, mas os secretários de Saúde e o Ministério Público estão trabalhando arduamente para tentar reverter essa situação”, revela.
Criadora do Instituto Um Só Coração e mãe do pequeno Caleb — que morreu na Santa Casa de Campo Grande em 2023 com cardiopatia congênita —, a enfermeira Gabrielle Montalvão se preocupa com as famílias de pacientes que dependiam deste serviço.
“Nossas crianças não podem novamente sofrer as consequências de uma estrutura de serviço falha e omissa, como vêm sofrendo há tantos anos. Sinto que, em vez de melhorar, estamos novamente colocando nossas crianças em uma situação injusta, sendo elas que sentem essas consequências na pele”, lamenta a enfermeira.

O que dizem as secretarias?
A Sesau informa que “não houve, por parte do Município, qualquer decisão de retirar a cirurgia cardíaca congênita das discussões do contrato relacionadas à assistência pelo SUS. A Sesau participou, inclusive, de uma discussão realizada no âmbito do Ministério Público, com a equipe responsável pela cirurgia cardíaca, ocasião em que foi manifestada a disponibilidade para a manutenção do serviço, desde que asseguradas as condições estruturais do hospital necessárias para sua continuidade. A Secretaria ressalta que a organização e a disponibilização da estrutura necessária para a realização dos procedimentos também envolvem a unidade hospitalar responsável pelo atendimento. Dessa forma, as tratativas seguem em andamento, com o objetivo de garantir a continuidade da assistência às crianças que necessitam desse tipo de procedimento, evitando qualquer desassistência. A Sesau permanece acompanhando a situação e participando das discussões necessárias para a manutenção da oferta do serviço pelo SUS em Campo Grande“.
O Jornal Midiamax perguntou à SES (Secretaria Estadual de Saúde) se a pasta estuda medidas para a reabertura do setor de cardiopediatria e se haverá apoio às famílias de crianças transferidas. Não houve resposta até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto.

