Por que a Corrupção Persiste em Campo Grande?
A Capital Morena atravessa um dos períodos mais sombrios de sua história administrativa. Em maio de 2026, Campo Grande não apenas lida com crateras nas ruas e filas na saúde, mas com o desmoronamento moral de suas instituições. Uma sequência de operações — “Buraco Sem Fim”, “Apagar das Luzes” e “OncoJuris” — revela um ecossistema onde o dinheiro público é drenado por todos os lados: do asfalto à iluminação, do transporte à oncologia.
Para entender a profundidade desse abismo, ouvimos o cientista político Antonio Ueno, que traça um perfil contundente sobre o “balcão de negócios” em que se transformou a gestão municipal.
1. O asfalto de papel
A investigação mais emblemática do momento é a Operação Buraco Sem Fim, deflagrada pelo GECOC e GAECO em 12 de maio de 2026. O esquema é um clássico da corrupção estrutural: o pagamento por serviços de “tapa-buracos” nunca executados ou feitos com material de quinta categoria.
- O Rombo: Entre 2018 e 2025, a Rial Construtora movimentou R$ 113,7 milhões.
- Dinheiro Vivo: A apreensão de R$ 429 mil em espécie na casa de investigados materializa o desvio.
- Cúpula sob Suspeita: A prisão do ex-secretário da Sisep, Rudi Fiorese, e de servidores como Mehdi Talayeh e Edivaldo Aquino, expõe uma engrenagem que sobreviveu à troca de prefeitos.
A Opinião de Antonio Ueno: “O que vemos em Campo Grande é a profissionalização da fraude. Não se trata de um desvio isolado, mas de um método de gestão. Quando o asfalto derrete na primeira chuva, o cidadão enxerga a corrupção física. O impacto político é severo; embora tente se distanciar alegando ‘herança maldita’, a continuidade dos contratos e a manutenção de nomes-chave na estrutura até o momento das prisões criam um cordão umbilical difícil de romper perante o eleitor.”
2. Escuridão planejada
Se no chão o problema é o buraco, no céu a questão é a falta de luz — ou melhor, o custo excessivo dela. A operação “Apagar das Luzes” (dezembro de 2025) revelou que a taxa de iluminação pública (COSIP) virou fonte de enriquecimento ilícito.
- O Prejuízo: Suspeita de superfaturamento superior a R$ 110 milhões.
- Modus Operandi: Uso de empresas de fachada (B&C Ltda. e JLC) para desviar recursos que deveriam garantir a segurança noturna da população.
- Reincidência: O histórico aponta que, desde 2019, a prefeitura utilizava manobras para desvincular receitas da COSIP, ferindo a Constituição.
3. O colapso da Saúde
Talvez a face mais cruel da crise esteja na saúde. Enquanto a UPA Leblon e a USF Alfredo Neder sofrem com falta de gaze e esparadrapo, as cifras investigadas são astronômicas.
- O Desvio do SUS: O TCU investiga o remanejamento indevido de R$ 156,8 milhões do Fundo Municipal de Saúde para pagar pessoal e contas atrasadas sem aval legislativo.
- Inconsistência Gigante: Conselheiros de saúde apontam um “buraco negro” de R$ 580 milhões não esclarecidos.
- Operação OncoJuris: Um esquema de R$ 78 milhões focado em desviar verbas de medicamentos oncológicos via decisões judiciais fraudulentas.
A Opinião de Antonio Ueno: “A saúde é o calcanhar de Aquiles de qualquer gestão. Quando o Ministério Público investiga desvios em medicamentos para câncer, a corrupção deixa de ser um crime financeiro para se tornar um crime humanitário. A centralização de recursos pela Lei 7.442/2025, o chamado ‘Sistema de Conta Única’, é vista por muitos como um duto para mascarar o fluxo de caixa, diminuindo a transparência e sufocando a autonomia da saúde.”
4. O peso dos repasses
O transporte público também entra na mira do debate sobre eficiência e transparência. Em 2026, o Consórcio Guaicurus deve abocanhar R$ 72,7 milhões entre subvenções e isenções de impostos (ISSQN).
- Tarifa Técnica: Enquanto o usuário paga R$ 4,95, a prefeitura completa o valor para atingir a tarifa técnica de R$ 6,57.
- Santa Casa: A maior instituição hospitalar do estado vive um braço de ferro. De um lado, a Defensoria investiga o uso de R$ 53 milhões após mortes suspeitas; de outro, a prefeitura é multada por atrasar repasses vitais.
O desafio
Campo Grande chega ao meio de 2026 com suas principais secretarias sob intervenção judicial ou auditorias pesadas. O cenário desenhado pelas operações Camuflagem, Cascalhos de Areia e Buraco Sem Fim mostra que a corrupção na capital sul-mato-grossense tornou-se sistêmica.
Antonio Ueno finaliza:
“A pergunta que o eleitor se fará não é mais quem roubou, mas quem terá a coragem de desmontar a estrutura. A prefeitura tenta estancar a sangria com exonerações reativas, mas o dano à imagem da capital é profundo. Estamos diante de uma crise de confiança que redefine o tabuleiro político para os próximos anos. A transparência em Campo Grande hoje não é uma escolha política, é uma questão de sobrevivência institucional.”

