Marisa Serrano reconhece desfalque no PSDB, analisa Congresso e teme domínio criminoso no Poder
Jornal Midiamax entrevistou a ex-senadora em sua residência, em Campo Grande. Confira!
A ex-senadora e conselheira aposentada do TCE-MS (Tribunal de Contas de Mato Grosso do Sul), Marisa Serrano, defende que o Senado Federal será o principal fiel da balança política no próximo quadriênio.
Em entrevista exclusiva ao Jornal Midiamax, a primeira mulher eleita para o Senado pelo Estado aponta distanciamento entre a conduta parlamentar e as necessidades nacionais, além de comentar a polarização política.
Aos 79 anos e com uma trajetória que inclui a presidência de CPIs e do Conselho de Ética, Marisa critica a falta de “lideranças de país” e a discussão rasa de ideias no Congresso Nacional.
Sobre o cenário local, ela avalia com pragmatismo a saída de nomes como o governador Eduardo Riedel e o ex-governador Reinaldo Azambuja do PSDB, que hoje estão filiados ao PP e PL, respectivamente, classificando o movimento como “conjuntura política”.
A educadora também manifesta preocupação com a infiltração de organizações criminosas nas instituições e cobra maior rigor na formação acadêmica brasileira.

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Confira a entrevista:
Repórter: No ano que vem, a senhora completa 80 anos, né? E boa parte desses anos foram vividos na política. Do que a senhora se arrepende?
Marisa Serrano: Eu não tenho nenhum arrependimento na política. Eu entrei no momento certo, sempre fui uma política de grupo. E tudo o que eu fiz foi sabendo o que era importante para o país e para o meu Estado. Então, se você perguntar o que eu não arrependo na política, não. Talvez de não ter feito mais do que eu fiz. Talvez isso tenha sido um obstáculo, por diversas razões. No começo, tinha uma razão que me segurava um pouco. Eram poucas mulheres na política e era muito difícil a gente se ouvir. E nem sempre os homens davam a nós o direito à voz. Mas hoje, graças a Deus, as coisas mudaram muito. Mas, na minha época, era muito difícil. Então, eu acho que ter atravessado essa fase para mim já foi uma vitória.
Repórter: Como a senhora avalia a forma que o Congresso tem atuado na política nacional?
Marisa Serrano: Eu acho que mudou uma mudança substancial em vários aspectos. Um deles é o relacionamento entre os congressistas. Na minha época, tínhamos problemas diversos, mas o relacionamento era sempre respeitoso. Raramente nós tínhamos problemas. Eu mesma participei como membro do Conselho de Ética, presidi uma CPI mista dos cartões cooperativos, que não foi fácil, numa época difícil do país, mas, mesmo [assim], você tinha adversários que se respeitavam. Hoje, quando eu vejo no Congresso atitudes de alguns congressistas, eu acho que o exemplo que nós estamos dando para a nação é muito ruim. Não é o exemplo de autoridades que são deputados e senadores. O segundo fator que eu vejo é a discussão de ideias, isso sendo muito raso. Você não vê grandes discussões a respeito. Ou é em pequenos grupos que decidem, ou são as comissões parlamentares de inquérito, que é um pouco mais de teatro do que para realmente… É o que a gente vê de fora. Não estou lá dentro para acompanhar. Mas o que nos passa é que é mais um espetáculo do que realmente para você analisar os fatos que estão colocados. Em resumo, eu acho que o Congresso hoje precisava dar uma parada e se reorganizar com mais seriedade, pensando mais no país.
Repórter: Em 2026, serão duas vagas para o Senado e a disputa promete ser acirrada. Qual é a marca que essas eleições vão deixar e que mensagem o eleitor deve passar?
Marisa Serrano: Nós estamos começando o ano com vários questionamentos nacionais e mundiais que podem desaguar em mudanças profundas até março, abril deste ano. Tanto na parte econômica como na parte política. Eu acredito que o eleitor vai estar muito atento, porque ele está sentindo na sua própria vida, na sua própria economia, na vida da sua família, as dificuldades que ele está passando. O Senado sempre foi mais pacato, mais técnico, mais tranquilo. E o que nós estamos vendo é que as coisas vão mudar. Eu acho que agora, no próximo quadriênio, quem vai dar as nossas cartas é o Senado. Todos os partidos, todos, esquerda, de direita, de centro, todos os partidos vão ter o foco maior no Senado.
Repórter: Como a senhora avalia o peso do Congresso na governabilidade do presidente da República?
Marisa Serrano: São muitas as variáveis. Nós estamos sem um líder político nesse país. Vou te dar um exemplo que eu vivenciei. Você tinha Ulisses Guimarães. Você tinha… Não estou aqui colocando a competência, a forma, mas eu estou dizendo a figura. Você tinha o ACM pai [Antônio Carlos Magalhães], né? Que podia ser meio truculento às vezes, mas ele era respeitado. Hoje, nós temos figuras que sejam respeitadas dentro e fora? Um líder que venha e que a população se identifique. Uma pessoa equilibrada, competente, que a população dê um aval. Agora, há um obstáculo: o problema do Congresso. Mesmo que a população possa apoiar um nome, um líder, nós temos um congresso que tem outros interesses às vezes. E uma reforma política seria fundamental. Só que eu não vejo nenhuma possibilidade hoje de nós termos uma reforma política nesse país. Nenhuma.
Repórter: A senhora esteve no Senado durante os dois primeiros mandatos do presidente Lula. Na sua opinião, o atual mandato dele melhorou ou não teve reflexos de melhoria comparado ao período anterior?
Marisa Serrano: Eu acredito que é difícil você comparar, porque há uma mudança no mundo em termos econômicos, em termos sociais e principalmente em termos tecnológicos. Então, é uma mudança que fez com que os governos todos se reinventassem. Eu não acredito que o governo Lula tenha se reinventado. Eu acredito que ele tenha ficado com as mesmas falas, com as mesmas atitudes e com a mesma visão de país que teve nos mandatos anteriores. E isso, para mim, é muito ruim, porque o Brasil precisava avançar muito, com uma outra mentalidade que esse governo não tem.
Repórter: Como a senhora enxerga a polarização atual?
Marisa Serrano: A polarização sempre existiu, mas ela era mais tracionada. Você tinha vários pontos e vários polos. Agora, não. Agora você tem dois polos. Está muito difícil para um partido como o meu, que é o PSDB, entrar numa vertente de dois polos apenas. Ou é sim, ou é não. E isso é ruim para o país. Precisávamos ter aí uma outra ordem nesse caminhar, que eu não estou vendo essa possibilidade hoje.
Repórter: Sobre a saída de lideranças como Eduardo Riedel e Reinaldo Azambuja do PSDB, a senhora viu isso como um desfalque?
Marisa Serrano: Bom, foi um desfalque, claro, mas não me senti traída e achando que isso foi um descaso com o partido. Isso se chama conjuntura política. Interesses eleitorais que fazem com que as pessoas se agrupem e tendem à próxima eleição. O Reinaldo é um estrategista. Ele se organiza e organizou a sua equipe toda para ganhar as eleições, para fazer o maior número de deputados. No caso, o total dos senadores, ele espera fazer as duas vagas e garantir o Governo do Estado. Eu acho que esse é o objetivo maior. E, nessa polarização que nós estamos vivendo no país, as coisas estão tão difíceis, que a gente não pode dizer que eles erraram.
Repórter: Qual sua avaliação sobre os escândalos recentes no Tribunal de Contas, com conselheiros afastados por investigações?
Marisa Serrano: Todas as instituições, a Justiça, o Tribunal de Contas, a estrutura política do país. Nós estamos vendo um país em que as facções criminosas estão entrando em todos os lugares. Antes eram nichos escondidos, agora eles estão como uma teia, tomando conta da vida do brasileiro. Isso me preocupa muito. Não é só o Tribunal de Contas, não é só o Tribunal de Justiça. Mas o povo brasileiro está sendo um pouco, aceitando um pouco essa forma mais fragilizada. Eu acho que o país está sendo cooptado por essas organizações todas e tenho medo que, a hora que a gente acordar, a gente vai estar aí, sendo governado por quadrilhas desse tipo.
Repórter: O que falta para a educação se tornar, de fato, uma pauta prioritária no Brasil?
Marisa Serrano: Eu acredito muito na profundidade do conhecimento. Eu fico muito preocupada quando vejo algumas universidades sem um lastro educacional sólido. Eu acredito que a gente forme profissionais não tão capacitados como o país precisa. Não estou dizendo que nossos professores não tenham capacidade. Eu acho que eles estão dentro de uma estrutura que a sociedade brasileira montou. Agora, é necessário que a gente… Ah, nós temos escolas em tempo integral. Excelente, isso é o que o mundo civilizado tem, mas não adianta ter uma escola em tempo integral se os alunos não saem com o conhecimento que eles deveriam ter.

