Esposa usou nome do filho para driblar polícia e esconder contato de ‘Frescura’ na cadeia
Empresário e a esposa foram presos em operação do Gecoc realizada em fevereiro
A esposa do empresário Ueverton da Silva Macedo — o “Frescura” —, Juliana Paula da Silva, conversava com o marido mesmo com ele preso preventivamente, entre outubro de 2024 e agosto de 2025. O contato dele foi salvo com o nome do filho do casal.
Esse é um dos detalhes revelados pelos investigadores do Gecoc/MPMS (Grupo Especial de Combate à Corrupção, do Ministério Público do Estado de Mato Grosso do Sul) e apresentados à Justiça.
Para os agentes, ficou demonstrado que era Ueverton na conversa de Juliana após a identificação de um áudio em que ele falava diretamente ao filho: “Oi, filho, cadê o neném do pai”. Em seguida, Juliana enviou a foto do menino.
Outro fator determinante foi que “Frescura” enviou uma foto dele para a esposa. Direto do Presídio de Trânsito de Campo Grande, ele comandava os negócios da família e a rede de apoio para superar as investigações.
“É crucial destacar que o uso do aparelho celular foi intenso, não se limitando a mensagens de texto. No período em que ‘Frescura’ esteve preso preventivamente (entre 2024 e 2025), foram registradas aproximadamente 2.000 ligações telefônicas, demonstrando um elevado e contínuo volume de interações”, destacam os investigadores no relatório.
A defesa de Ueverton da Silva Macedo, feita pelo advogado Arlei de Freitas, informou que está estudando o processo para apresentar a contestação ao relatório do Gecoc, assim como provas que surjam no futuro.
Preso, ‘Frescura’ comandava negócios da família em Sidrolândia direto da cadeia
“Frescura” comandava os negócios da família em Sidrolândia mesmo preso no Presídio de Trânsito de Campo Grande. Ele voltou para a prisão em 26 de fevereiro justamente por conta da rede de apoio que montou enquanto esteve na Capital.
Ficou demonstrado que era “Frescura” do outro lado quando ele e a esposa citavam nominalmente os filhos do casal. A prova crucial foi uma selfie que Ueverton enviou para a companheira.
Em maio de 2025, ele fez uma reserva em um hotel de Campo Grande para a esposa e os dois filhos. “Tá reservado pra vocês. Sábado e domingo. Pode ficar até segunda. Já se programa. Arruma as malas”, escreveu Frescura para Juliana.
Ainda naquele mês, Ueverton pediu que a esposa encontrasse um corretor de imóveis para avaliar uma proposta. “Vai lá amanhã falar com ele”, solicitou.
Em outro trecho do relatório, os agentes citam conversa do empresário comentando a despedida do juiz Fernando Moreira Freitas da Silva, então titular da Vara Criminal de Sidrolândia.
Silva deixou o cargo para assumir a função de professor de Direito da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul). O juiz Bruce Henrique dos Santos Bueno Silva assumiu a comarca de Sidrolândia logo depois.
“Esse conhecimento prévio sobre a movimentação funcional do magistrado evidencia que Ueverton da Silva Macedo, mesmo segregado cautelarmente, monitorava o mundo externo, sobretudo a autoridade judiciária responsável pela condução dos processos criminais em seu desfavor”, dizem os investigadores.
Nova operação em Sidrolândia mira alvos da Tromper e prende cinco por corrupção
Em 26 de fevereiro de 2026, o Gecoc/MPMS (Grupo Especial de Combate à Corrupção, do Ministério Público do Estado de Mato Grosso do Sul) deflagrou, em Sidrolândia, a Operação Camuflagem, um desdobramento da Tromper, com o objetivo de apurar o crime de lavagem de dinheiro, na modalidade de ocultação e dissimulação de bens, direitos e valores.
Os promotores do Gecoc e da 3ª Promotoria de Justiça de Sidrolândia constataram que um dos membros da organização criminosa estaria usando uma rede estruturada de apoio formada por pessoas e empresas para movimentar dinheiro, ocultar bens e tentar evitar o bloqueio judicial.
Essa estrutura incluía uso de contas bancárias de terceiros, empresas registradas em nome de “laranjas” e até do nome de pessoas para fazer pagamentos e movimentações financeiras para o investigado e a família, inclusive durante o período em que esteve preso.
Foram cumpridos oito mandados de busca e apreensão e cinco de prisão. Os alvos foram Ueverton da Silva Macedo (“Frescura”), a esposa dele, Juliana Paula da Silva, e os empresários Evertom Luiz de Souza Luscero e Gleidson Cabral Nobre.
A Operação Camuflagem tem esse nome para remeter à tentativa de esconder a verdadeira origem e titularidade de valores, usando uma rede de apoio destinada a ocultar as movimentações financeiras.
Construção de casas para lavar dinheiro
Conforme apurado pela investigação, a estrutura envolvia o uso de contas bancárias de terceiros, empresas formalmente registradas em nome de comparsas e a interposição de pessoas para a realização de pagamentos e movimentações financeiras em benefício de Frescura e de sua família — inclusive enquanto o empresário cumpria medidas cautelares.
Conforme apurado pela reportagem, o empresário compra terrenos para construir imóveis e, depois, vende. Flaviana seria contratada por “Frescura” para assinar os projetos de engenharia.
Tudo isso para movimentar dinheiro, ocultar bens e tentar evitar o bloqueio judicial. A cidade virou centro de escândalos de corrupção nos últimos anos, a partir da deflagração da Operação Tromper, que revelou esquema de desvios milionários em contratos de obras, chefiado pelo então secretário de Fazenda — e genro da ex-prefeita Vanda Camilo — Claudinho Serra.

