“Estranhezas”: Filho de Divoncir enviou R$ 62 mil a desembargadora e recebeu R$ 131 mil de limpador de vidros
O acórdão do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), que condenou o desembargador Divoncir Schreiner Maran, do TJMS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul), à aposentadoria compulsória se ancora em elementos da Operação Tiradentes, realizada em 2024 pela Polícia Federal.
O documento destaca algumas movimentações financeiras relacionadas a Vânio Maran, filho mais velho do desembargador e suspeito de ser operador do pai. A PF classificou no quesito “estranheza” o envio de R$ 62 mil do filho de Divoncir para a desembargadora Elizabete Anache e a transferência de R$ 131 mil feita por um antigo limpador de vidros para a conta de Vânio.
“Nesse sentido, a transferência de R$ 131 mil de CRISTIAN ARAÚJO, antigo limpador de vidros desse último escritório de advogados, para VÂNIO MARAN ainda carece de muitas explicações”.
“Além disso, não há como desconsiderar a estranheza do envio de R$ 62 mil de VÂNIO MARAN para a Des. ELIZABETE (Diagrama 14), tendo em vista que não foram encontrados, até o momento, vínculos entre os dois”.
Ao O Jacaré, a desembargadora afirmou que o dinheiro foi pagamento de uma Saveiro, vendida pelo seu esposo para Vânio Maran. Elizabete Anache enviou documentos para provar a transação entre o marido e o advogado. “Não tem nada de irregular, tenho comprovante da transferência”, frisou.
A magistrada destacou que o filho de Divoncir encaminhou toda a documentação para provar a transação envolvendo o veículo. Ela disse que o marido anunciou a venda e Vânio se interessou pelo negócio, comprou a picape e fez o depósito em sua conta. A desembargadora fez questão de frisar que, como servidora pública, tem a obrigação de não deixar dúvidas.
O documento ainda destaca existência de bancas de advocacia que têm vínculos com desembargadores. Uma delas é a Raslan e Maran Advogados, em que eram sócios Cynthia Raslan, irmã do desembargador Alexandre Lima Raslan, e Vânio Maran, filho do desembargador Divoncir.
Outro escritório é o Maran & Ferreira Rodrigues Advogados Associados, em que são sócios Divoncir Júnior (outro filho do desembargador) e Diogo Ferreira Rodrigues, filho do desembargador Marcos José de Brito Rodrigues. Este último foi afastado do TJMS em outubro de 2024 por suspeita de venda de sentença, que é investigada pela PF na Operação Ultima Ratio.
Mensagens apagadas
O desembargador Divoncir Maran foi punido pelo CNJ por ter concedido habeas corpus e permitido a fuga de Gerson Palermo, chefão do tráfico com pena de 126 anos de prisão. A decisão foi no plantão de 20 de abril de 2020, véspera do feriado de Tiradentes e marcado pelo começo da pandemia.
Naquele momento, a Justiça recebeu enxurrada de ações requisitando a liberdade aos presos do chamado grupo de risco para a covid. Conversas por aplicativo mostram que a chegada do pedido já era aguardada pelos assessores do desembargador. Inclusive, ele já havia determinado a concessão da liberdade para Palermo.

Mas enquanto os prints mostram os bastidores da decisão, com a servidora que redigiu o voto contrariada, o celular de Divoncir não tinha mensagens.
Na análise dos dados constantes no aparelho do desembargador, apreendido na Operação Tiradentes, foi verificado que todas as conversas teriam sido apagadas pelo magistrado ou por aplicativo, programa ainda não identificado pelos peritos criminais que atuam no caso.
“O contexto investigativo explanado nestes autos não deixa dúvidas de que existem elementos concretos e provenientes de variadas fontes de que o Desembargador Divoncir utiliza o cargo para o cometimento dos crimes apurados”.
Filho do desembargador, o advogado Divoncir Júnior se recusou a entregar a senha e o aparelho teve que ser enviado para Brasília.
“No cumprimento do Mandado de Busca e Apreensão na sua residência por ocasião da Operação TIRADENTES foi apreendido um aparelho celular Apple iPhone 13, de posse do investigado. DIVONCIR JUNIOR se negou a fornecer para a equipe de policiais a senha de desbloqueio de seu aparelho”.
Devido ao bloqueio de acesso por senha desconhecida, não foi possível proceder à extração dos dados do equipamento com os recursos disponíveis neste SETEC/MS, setor técnico-científico da Polícia Federal em Mato Grosso do Sul. O aparelho foi encaminhado para o Instituto Nacional de Criminalística, em Brasília, para tentativa de extração dos dados.
Fuga de Palermo
Com o habeas corpus concedido em 21 de abril, o traficante se livrou da tornozeleira eletrônica no dia seguinte, quando o desembargador Jonas Hass Silva Junior, relator do processo, revogou a prisão domiciliar.
O traficante, que já foi chefe no PCC (Primeiro Comando da Capital), acumula passagens pela polícia desde 1991. O crime mais ousado foi em 2000, quando sequestrou um Boeing da Vasp.

